Ver um pai ou uma avó empurrar a comida no prato e comer quase nada é uma das cenas mais angustiantes para quem cuida. A vontade é insistir, improvisar, oferecer qualquer coisa que ele aceite — e aí surgem as dúvidas sobre o que fazer com um idoso com pouco apetite. Este texto reúne orientações práticas sobre causas, sinais de alerta e estratégias para estimular a alimentação, ajudando a família a agir com segurança e a saber quando buscar apoio profissional.
O idoso está com pouco apetite: por onde começar
Quando um idoso começa a recusar comida, a primeira atitude do cuidador costuma ser insistir, repetir o prato ou apelar para a culpa. Nenhuma dessas estratégias funciona de forma sustentada — e algumas pioram a recusa. Antes de qualquer intervenção, é preciso observar três coisas: há quantos dias a alimentação está reduzida, se houve perda de peso perceptível e se existe algum sintoma associado, como dor, tosse durante as refeições ou alteração do humor.
O ponto de partida prático é registrar o que o idoso efetivamente consome em 24 horas, sem julgamento. Anote horários, quantidades aproximadas, líquidos e episódios de recusa. Esse registro simples, mantido por três a cinco dias, transforma uma percepção vaga (“ele quase não come”) em informação objetiva que o médico e o nutricionista conseguem usar. A partir dele, também fica mais fácil identificar se o problema é global ou se concentra em texturas, sabores ou momentos específicos do dia.
Em paralelo, vale checar o básico que muitas vezes passa despercebido: a boca do idoso. Próteses mal ajustadas, cáries, feridas na gengiva e boca seca estão entre as causas mais comuns e mais negligenciadas de recusa alimentar na terceira idade. Uma avaliação odontológica resolve, em poucos dias, um problema que nenhuma receita ou suplemento resolveria.
Por que o apetite diminui com a idade
A perda de apetite no envelhecimento tem nome técnico — anorexia do envelhecimento — e não é frescura nem manha. Trata-se de um fenômeno fisiológico documentado, que envolve alterações hormonais, sensoriais e gastrintestinais. Compreender esse mecanismo ajuda o cuidador a separar o que é esperado do que exige intervenção.
Mudanças naturais do envelhecimento
Com o passar das décadas, o corpo reduz a produção de grelina, o hormônio que sinaliza fome, e aumenta a sensibilidade à leptina e à colecistocinina, que promovem saciedade. O esvaziamento gástrico fica mais lento, então a sensação de “estômago cheio” dura mais tempo após uma refeição modesta. A massa muscular diminui, o gasto energético basal cai, e o cérebro interpreta essa menor demanda como menos necessidade de comer.
Os sentidos também mudam: o número de papilas gustativas diminui, o olfato perde acuidade e a produção de saliva cai. Um alimento que antes parecia saboroso passa a ter gosto insosso ou metálico. Some-se a isso a redução da visão, que torna o prato menos atraente, e você tem um cenário em que o idoso não recusa comida por teimosia — ele simplesmente não sente o mesmo prazer em comer.
Quando a perda de apetite deixa de ser normal
A anorexia do envelhecimento explica uma redução gradual e discreta ao longo de anos. Ela deixa de ser fisiológica quando a perda de apetite é rápida, quando vem acompanhada de perda de peso não intencional superior a 5% em um mês ou 10% em seis meses, ou quando há sintomas como dor abdominal, náusea persistente, febre ou alteração do nível de consciência. Nesses casos, a causa não é a idade — é doença.
Outro sinal que separa o normal do preocupante é a seletividade extrema. Idoso que sempre comeu de tudo e passa a aceitar apenas líquidos, ou que recusa até os alimentos preferidos, está emitindo um alerta. A recusa alimentar em fim de vida, por exemplo, segue um padrão específico de progressão e deve ser manejada com conforto, não com insistência — tema que exige conversa franca com a equipe médica.
Causas físicas da falta de apetite no idoso
Antes de pensar em estratégias de estímulo, é obrigatório descartar causas físicas tratáveis. A maioria delas é silenciosa e só aparece quando o cuidador investiga ativamente.
Problemas dentários, mastigação e deglutição
A boca é a porta de entrada da alimentação, e é onde mais se acumulam barreiras invisíveis. Prótese dentária desajustada causa dor a cada mastigada; dentes ausentes dificultam triturar carnes e vegetais crus; xerostomia (boca seca), comum pelo uso de múltiplos medicamentos, torna o bolo alimentar difícil de formar e engolir. O idoso raramente verbaliza “minha prótese está machucando” — ele simplesmente passa a evitar alimentos que exigem mastigação.
A disfagia, dificuldade de engolir, merece atenção especial. Tosse durante ou após as refeições, voz molhada, pigarro constante e sensação de alimento parado na garganta são sinais clássicos. A disfagia não tratada leva à recusa alimentar por medo de engasgar e aumenta o risco de pneumonia aspirativa. A adaptação de textura e consistência — purês, alimentos macios, líquidos espessados — é a primeira resposta, sempre orientada por fonoaudiólogo ou nutricionista.
Alterações no paladar, olfato e digestão
A redução do olfato, chamada hiposmia, afeta diretamente a percepção de sabor, já que grande parte do que chamamos de gosto vem do aroma. Doenças neurodegenerativas, infecções virais e o próprio envelhecimento comprometem esse sentido. O resultado prático: o idoso acha a comida sem graça e perde o interesse. Intensificar temperos naturais, ervas e especiarias — sem excesso de sal — é uma estratégia eficaz e barata.
No trato digestivo, o envelhecimento reduz a secreção de ácido gástrico e enzimas, retardando o esvaziamento do estômago. Gastrite atrófica, constipação crônica e refluxo são frequentes e geram desconforto que suprime a fome. Refeições menores e mais frequentes, com menor teor de gordura saturada, costumam aliviar esses sintomas e permitir maior ingestão total ao longo do dia.
Doenças e condições que reduzem a fome
Uma lista de condições clínicas está associada à perda de apetite no idoso, e ela é extensa. As mais relevantes incluem:
- Doenças oncológicas, pelo efeito direto do tumor e das citocinas inflamatórias
- Insuficiência cardíaca, que causa saciedade precoce por congestão visceral
- Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), que associa dispneia à alimentação
- Insuficiência renal crônica, com acúmulo de substâncias que suprimem a fome
- Doenças da tireoide, tanto hipo quanto hipertireoidismo
- Infecções crônicas ou recorrentes, incluindo infecção urinária silenciosa
- Doenças inflamatórias intestinais e úlceras pépticas
Em idosos, infecções podem se manifestar apenas como prostração e recusa alimentar, sem febre. A infecção urinária é o exemplo clássico: o idoso fica confuso, sonolento e para de comer, e a família atribui o quadro à idade. Diante de mudança súbita de comportamento alimentar, a avaliação médica deve incluir triagem infecciosa.
Medicamentos que afetam o apetite
A polifarmácia — uso de cinco ou mais medicamentos — atinge grande parte da população idosa e é uma causa subestimada de perda de apetite. Diversas classes de fármacos têm efeito anorexígeno ou alteram paladar e olfato:
- Antidepressivos, especialmente inibidores seletivos de recaptação de serotonina
- Digoxina, usada em arritmias e insuficiência cardíaca
- Opióides, que causam náusea e constipação
- Anticolinérgicos, que ressecam a boca
- Levodopa, usada no Parkinson, que pode causar náusea
- Metformina e outros hipoglicemiantes orais
- Anti-inflamatórios não esteroidais, que irritam a mucosa gástrica
A revisão medicamentosa periódica com o geriatra é essencial. Em muitos casos, ajustar horário de administração, substituir um fármaco ou reduzir dose restaura o apetite sem nenhuma outra intervenção. Nunca se deve suspender ou alterar medicação por conta própria, mas levar a lista completa de remédios — incluindo os de venda livre — a cada consulta é uma prática que evita iatrogenias.
Fatores emocionais e sociais que tiram a vontade de comer
A alimentação humana é um ato social e emocional antes de ser nutricional. Isolamento, luto e perda de autonomia atingem o apetite com a mesma força que uma doença orgânica.
Depressão, luto e ansiedade
A depressão no idoso frequentemente se apresenta de forma atípica: em vez de tristeza verbalizada, há apatia, irritabilidade e recusa alimentar. A perda de apetite é um dos critérios diagnósticos de depressão e, em idosos, costuma ser o sintoma mais visível. O luto pela perda do cônjuge tem efeito devastador: comer sozinho na mesa onde o companheiro sentava reativa a dor a cada refeição.
A ansiedade também suprime a fome por vias neuroendócrinas, e é comum em idosos com comprometimento cognitivo que se sentem inseguros, desorientados ou ameaçados. O tratamento da depressão e da ansiedade — psicoterapia, medicação quando indicada, atividades sociais — costuma ter impacto direto e mensurável na ingestão alimentar em poucas semanas.
Solidão, isolamento e perda de autonomia
Comer sozinho é um dos maiores preditores de desnutrição em idosos. A refeição solitária tende a ser mais rápida, mais pobre em variedade e menos prazerosa. Idosos que vivem sozinhos pulam refeições, optam por alimentos de preparo instantâneo e perdem o ritmo de fome. A perda de autonomia — não poder mais cozinhar, fazer compras ou até segurar os talheres com firmeza — adiciona uma camada de frustração que se traduz em desistência.
Estratégias de convivência mudam esse cenário. Refeições em grupo, mesmo que uma ou duas vezes por semana, aumentam o tempo de refeição, a variedade consumida e o prazer associado à comida. Serviços de day use para idosos, que incluem refeições coletivas e atividades sociais, atuam exatamente nesse eixo: o idoso come melhor porque está acompanhado, estimulado e inserido em uma rotina. Quem avalia essa alternativa pode considerar o que diferencia day use e centro dia antes de decidir.
O que fazer no dia a dia para estimular o apetite
Depois de afastadas as causas médicas e emocionais tratáveis, entra a rotina. Pequenos ajustes diários, mantidos com consistência, têm efeito cumulativo maior do que grandes mudanças pontuais.
Ajustes na rotina e no ambiente das refeições
O ambiente molda o comportamento alimentar. Um refeitório claro, silencioso e sem odores fortes facilita a refeição; uma mesa bagunçada, televisão alta ou pressa atrapalham. Algumas medidas práticas com bom custo-benefício:
- Estabelecer horários fixos para as refeições, mesmo que as porções sejam pequenas
- Servir em pratos menores, que dão impressão de porção adequada
- Usar pratos de cores contrastantes com a comida, o que melhora a percepção visual
- Reduzir distrações sonoras e visuais durante a refeição
- Respeitar o ritmo do idoso, sem apressar ou cronometrar
- Manter postura sentada ereta e confortável, com apoio para os pés
Para idosos com demência ou Alzheimer, a rotina rígida é ainda mais importante. A previsibilidade reduz a ansiedade e a recusa. Oferecer o mesmo tipo de alimento em horários consistentes, usar louça sem estampas confusas e evitar excesso de opções na mesa são estratégias que funcionam melhor do que a variedade ampla.
Estratégias para tornar os pratos mais atrativos
O apelo visual é o primeiro estímulo para comer. Um prato colorido, com contraste entre os alimentos e apresentação caprichada, desperta o interesse mesmo quando o apetite está baixo. Técnicas simples ajudam:
- Usar ervas frescas e temperos naturais para realçar aroma e sabor
- Servir alimentos em temperatura adequada — nem morno, nem quente demais
- Montar pratos com pelo menos três cores diferentes
- Oferecer pequenas porções em etapas, permitindo repetir se quiser
- Variar a forma de preparo do mesmo alimento (assado, cozido, grelhado, em purê)
O olfato é a via sensorial mais rápida para despertar o apetite. O aroma de comida sendo preparada na cozinha, minutos antes da refeição, ativa a fome por antecipação. Cozinhar perto do horário de servir, ou ao menos aquecer os alimentos no ambiente da refeição, é uma estratégia sensorial subutilizada.
Como aumentar a densidade nutricional sem aumentar o volume
Quando o idoso come pouco, cada colherada precisa render mais. A densidade nutricional — quantidade de calorias e proteínas por volume de alimento — é a ferramenta central. Técnicas para enriquecer preparações sem aumentar o tamanho da porção:
- Adicionar azeite de oliva extravirgem a purês, sopas e legumes
- Misturar leite em pó integral a mingaus, vitaminas e molhos
- Usar ovos inteiros em preparações cremosas e suflês
- Incorporar queijos ralados, creme de leite ou iogurte integral a massas e purês
- Oferecer pastas de oleaginosas (amendoim, castanhas) em torradas e frutas
- Substituir água por caldo de carne ou legumes no cozimento de arroz e sopas
A proteína merece prioridade absoluta, pois é o nutriente mais associado à preservação muscular no idoso. Distribuí-la ao longo do dia — presente em todas as refeições, inclusive lanches — é mais eficaz do que concentrá-la no almoço. Ovos mexidos cremosos, patês de atum ou frango, iogurte grego e leguminosas amassadas são veículos proteicos de fácil aceitação.
Hidratação e sinais de desidratação
A desidratação reduz o apetite e, em idosos, instala-se rapidamente. A sensação de sede diminui com a idade, então o idoso pode estar desidratado sem sentir vontade de beber. Sinais precoces que o cuidador pode observar em casa:
- Boca e língua secas, lábios rachados
- Urina escura, em pequena quantidade ou ausente por muitas horas
- Pele que demora a voltar ao normal após ser pinçada
- Sonolência, confusão mental ou irritabilidade sem causa aparente
- Olhos fundos e redução do volume de lágrimas
- Constipação nova ou agravada
A meta de hidratação deve ser individualizada, mas uma referência prática é oferecer líquidos em pequenos volumes ao longo de todo o dia — goles frequentes, não copos grandes de uma vez. Água saborizada com frutas, chás claros, sopas, gelatinas e frutas ricas em água (melancia, melão, laranja) contam como ingestão líquida e são mais bem aceitas do que água pura por muitos idosos.
O que oferecer para o idoso sem apetite
A escolha do alimento certo faz diferença entre a refeição aceita e a recusada. O critério não é apenas nutricional: textura, temperatura, facilidade de mastigação e familiaridade pesam tanto quanto o valor calórico.
Alimentos e preparações que costumam ser bem aceitos
Alimentos macios, úmidos e de sabor suave tendem a ter melhor aceitação. Uma lista de preparações com boa taxa de sucesso em idosos com apetite reduzido:
- Mingaus e cremes de cereais enriquecidos com leite integral
- Ovos mexidos cremosos, omeletes macios e suflês
- Sopas cremosas de legumes com proteína desfiada
- Purês de batata, mandioquinha, abóbora e cenoura com azeite
- Iogurte integral, vitaminas de frutas com leite e aveia
- Frutas macias: banana amassada, mamão, manga, pera cozida
- Peixes de carne macia, como tilápia e merluza, desfiados
- Leguminosas em forma de pasta, como homus e patê de feijão
A textura deve acompanhar a capacidade de mastigação e deglutição de cada idoso. Para quem tem dificuldade leve, alimentos picados em pedaços pequenos e macios bastam. Para disfagia moderada, purês homogêneos e alimentos de consistência pastosa são necessários. Para disfagia grave, líquidos espessados e consistência tipo pudim — sempre sob orientação do fonoaudiólogo. Adaptar a consistência é uma das intervenções mais eficazes e menos comentadas quando se fala em idoso com pouco apetite.
O que evitar na hora de insistir com a comida
A insistência é a principal inimiga da alimentação do idoso. Algumas práticas comuns que devem ser evitadas:
- Forçar a colher na boca ou ameaçar com consequências
- Servir porções grandes que intimidam
- Comentar sobre a quantidade que “deveria” ter comido
- Comparar com o que comia antes ou com outras pessoas
- Negociar ou barganhar (“se comer tudo, ganha sobremesa”)
- Manter o prato na frente do idoso por tempo prolongado após a recusa
- Oferecer alimentos que ele já recusou repetidamente, sem variação
A recusa alimentar em fim de vida segue uma lógica própria e exige abordagem distinta. Quando o corpo está em processo de desligamento, a fome desaparece e a alimentação forçada causa desconforto, náusea e risco de aspiração. Nesse contexto, o objetivo deixa de ser nutrir e passa a ser confortar: oferecer pequenos goles de líquido, cuidar da boca e respeitar a recusa é conduta ética e humanizada, alinhada aos princípios de cuidados paliativos.
Sinais de alerta: quando a falta de apetite preocupa
O cuidador é o sensor mais sensível para detectar deterioração. Saber quais sinais medir e registrar em casa acelera o diagnóstico e evita que a desnutrição se instale silenciosamente.
Perda de peso, fraqueza e sinais de desnutrição
A perda de peso não intencional é o marcador mais objetivo de que a falta de apetite está causando dano. Parâmetros de referência: perda de 5% do peso corporal em um mês, ou 10% em seis meses, é considerada clinicamente significativa e exige investigação. Para um idoso de 60 kg, isso significa 3 kg em um mês ou 6 kg em seis meses.
Sinais precoces de desnutrição que o cuidador pode observar sem equipamento:
- Roupas que ficam largas na cintura e nos ombros
- Redução visível da musculatura das têmporas e das mãos
- Dificuldade nova para levantar da cadeira ou subir degraus
- Quedas sem explicação ou sensação de pernas bambas
- Pele fina, descamativa e com hematomas fáceis
- Feridas que demoram a cicatrizar
- Unhas quebradiças e queda de cabelo acentuada
A circunferência da panturrilha é uma medida simples que o cuidador pode fazer em casa com fita métrica: valores abaixo de 31 cm em idosos indicam baixa massa muscular e risco de sarcopenia. Registrar o peso semanalmente, sempre na mesma balança e no mesmo horário, cria uma série temporal que o médico usa para avaliar a velocidade da perda.
Risco de sarcopenia e desidratação
A sarcopenia — perda progressiva de massa e força muscular — é a consequência mais temida da desnutrição no idoso. Ela aumenta o risco de quedas, fraturas, hospitalização e perda de independência. A ingestão proteica insuficiente, somada ao sedentarismo, acelera o processo. Estima-se que a partir dos 50 anos haja perda de 1% a 2% da massa muscular por ano, ritmo que se intensifica quando a alimentação é insuficiente.
A desidratação crônica, por sua vez, agrava a constipação, reduz a pressão arterial, compromete a função renal e piora o estado cognitivo. O idoso desidratado fica mais sonolento, mais confuso e ainda menos disposto a comer — um ciclo vicioso. A combinação de baixa ingestão alimentar e hídrica é a porta de entrada para descompensações que poderiam ser evitadas com vigilância domiciliar.
Quando e qual profissional procurar
A perda de apetite no idoso raramente tem causa única. A abordagem ideal é multiprofissional, com cada especialista atuando em uma camada do problema.
O papel do geriatra, do nutricionista e da equipe multiprofissional
O geriatra é o coordenador do cuidado: investiga causas orgânicas, revisa medicamentos, trata doenças de base e define se há indicação de suplementação ou estimulante de apetite. O nutricionista avalia o consumo real, calcula necessidades calóricas e proteicas, adapta consistências e propõe estratégias de enriquecimento. Nenhum suplemento deve ser iniciado sem essa avaliação — a suplementação indiscriminada pode causar diarreia, interação medicamentosa e gasto desnecessário.
Outros profissionais entram conforme a necessidade identificada:
- Fonoaudiólogo: avalia e trata disfagia, adapta consistências e orienta técnicas seguras de alimentação
- Odontologista: trata cáries, ajusta próteses e maneja boca seca
- Psicólogo ou psiquiatra: trata depressão, ansiedade e transtornos alimentares associados
- Fisioterapeuta: mantém força e mobilidade, que influenciam o apetite e a capacidade de se alimentar sozinho
- Terapeuta ocupacional: adapta talheres, copos e o ambiente para preservar autonomia na refeição
A comunicação entre esses profissionais é tão importante quanto a atuação individual. O cuidador que leva o registro alimentar e a lista de medicamentos a cada consulta funciona como elo que costura o plano de cuidado.
Exames e avaliações que costumam ser solicitados
Diante de perda de apetite com repercussão clínica, o geriatra costuma solicitar uma bateria inicial de exames. Os mais frequentes:
- Hemograma completo, para detectar anemia e infecções
- Dosagem de albumina e pré-albumina, marcadores de estado nutricional
- Função renal (creatinina, ureia) e eletrólitos
- Função hepática e perfil de proteínas totais
- Função tireoidiana (TSH e T4 livre)
- Glicemia e hemoglobina glicada
- Dosagem de vitamina B12, ácido fólico e vitamina D
- Exame de urina e urocultura, para triagem de infecção urinária silenciosa
- Avaliação de deglutição com fonoaudiólogo, quando há tosse ou engasgo
Além dos exames laboratoriais, o médico aplica instrumentos de triagem nutricional, como a Mini Avaliação Nutricional (MAN), que classifica o idoso em risco ou desnutrido. A endoscopia digestiva alta e exames de imagem entram apenas quando há suspeita específica, como tumor, úlcera ou doença inflamatória. O registro alimentar feito em casa é um documento clínico valioso nessa etapa — leve-o à consulta.
Como o cuidador pode se cuidar nesse processo
O cuidador sobrecarregado compromete, sem perceber, a alimentação do idoso. A exaustão gera impaciência, a impaciência gera insistência, e a insistência gera recusa. O ciclo se retroalimenta. Cuidar de quem cuida não é luxo — é parte do tratamento da perda de apetite.
A sobrecarga do cuidador se manifesta de formas concretas: sono insuficiente, ausência de pausas, isolamento social e culpa. Cada um desses fatores reduz a tolerância à recusa alimentar e aumenta o risco de atitudes contraproducentes, como forçar a comida ou desistir de tentar. O cuidador que reconhece seus limites consegue pedir ajuda antes de chegar ao esgotamento.
Alternativas de apoio existem e devem ser consideradas sem culpa. O day use para idosos oferece períodos de convivência, atividades e refeições em grupo que aliviam a rotina do cuidador e, simultaneamente, estimulam o apetite do idoso pelo convívio social. Para famílias que avaliam essa possibilidade, conhecer o que define o custo do day use e se a alimentação está incluída no serviço ajuda na decisão. Em Brasília, há opções de day use em Águas Claras e no Lago Sul com propostas distintas de atividades e refeições.
Pedir ajuda não significa falhar como cuidador. Significa reconhecer que o cuidado prolongado exige rede de apoio — família, amigos, profissionais e serviços. O idoso come melhor quando o cuidador está descansado, e o cuidador descansa quando divide a responsabilidade.
Perguntas frequentes sobre idoso com pouco apetite
É normal idoso comer menos com o passar dos anos?
Sim, dentro de limites. A redução gradual e discreta do apetite faz parte do envelhecimento fisiológico. O que não é normal é perda de peso rápida, recusa de alimentos antes apreciados ou sintomas associados como dor, náusea e fraqueza. A regra prática: redução lenta e estável, acompanhada de peso estável, tende a ser fisiológica; qualquer mudança brusca exige avaliação médica.
Devo dar suplemento nutricional para o idoso que come pouco?
Não sem orientação profissional. Suplementos nutricionais orais têm indicação específica — desnutrição confirmada ou risco elevado — e devem ser prescritos por médico ou nutricionista. O uso indiscriminado pode causar desconforto gastrintestinal, reduzir ainda mais a ingestão de alimentos reais e gerar custo sem benefício. Antes do suplemento, esgotam-se as estratégias de enriquecimento alimentar com comida de verdade.
Como lidar com a recusa alimentar em idoso com Alzheimer?
A demência altera o reconhecimento dos alimentos, a coordenação dos talheres e a percepção de fome. Estratégias específicas incluem: rotina rígida de horários, pratos sem estampas, uma única opção de alimento por vez, consistência adaptada à deglutição e ambiente calmo. A recusa em fases avançadas pode indicar disfagia não diagnosticada — a avaliação fonoaudiológica é essencial. Em estágios finais, a recusa alimentar faz parte do processo natural e deve ser respeitada com foco em conforto.
O que fazer quando o idoso só aceita líquidos?
A aceitação apenas de líquidos é um sinal de alerta que exige avaliação. Pode indicar disfagia, problema dentário, depressão ou doença orgânica. Enquanto a investigação acontece, os líquidos podem ser enriquecidos: vitaminas com leite integral, aveia e frutas; sopas cremosas batidas com proteína; caldos engrossados. Mas a solução definitiva depende de tratar a causa — não de adaptar permanentemente a dieta a líquidos.
Quando a falta de apetite indica fim de vida?
Em idosos com doença avançada ou em fase terminal, a recusa alimentar progressiva é parte do processo de morte e não deve ser combatida com alimentação forçada. Os sinais incluem: sonolência crescente, desinteresse total por comida e líquidos, redução da urina e desconforto ao engolir. Nessa fase, a conduta correta é conforto: higiene oral, pequenos goles se desejado, presença afetiva e suporte da equipe de cuidados paliativos.





